O Ceifeiro e Outras Histórias

Atualizado: 3 de nov. de 2021

Algumas semanas atrás nessa coluna eu apresentei brevemente o quadrinista Wilson Vieira e sua trajetória nos quadrinhos. Hoje chegou o momento de mergulhar um pouco mais fundo em um dos títulos mais recentes lançados pela Red Dragon: O Ceifeiro e Outras Histórias.


Esta revista é uma antologia que reúne 12 contos com duas a oito páginas cada, roteirizados por Wilson Vieira e ilustrados por vários artistas. Todas as histórias já foram publicadas e contam um pouco sobre sua carreira, mas dentre eles temos um que merece atenção especial: Censurado. Sim, nessa antologia a Red Dragon recuperou a história que o autor fez com Aloisio de Castro em 1985 para a icônica revista de terror Calafrio.



Obviamente não irei comentar cada um dos contos reunidos nessa revista, isso cabe ao leitor descobrir, mas vale pontuar alguns deles e explanar que todos eles têm uma inspiração bastante pautada numa mistura de gêneros narrativos que tem o horror como ponto focal. E assim, com um tipo de escrita mais literário e verborrágico, o leitor é enviado para situações limite com ambientações definitivas.


Assim, encontramos nesta edição onde encontramos narrativas das quais a ficção científica divide espaço com o western, cenários contemporâneos urbanos e gângster estadunidenses da grande depressão. E não espere encontrar como antagonista algo padrão e clichê em cada um dos cenários, o leitor é sempre desafiado ao desconhecido e lançado em meio a momentos de perigo iminente que nos provocam e deixam com vontade de saber o que acontece a seguir (pelo menos naquelas histórias que os personagens sobrevivem).



E embora a editora tenha colocado o conto Censurado mais para o meio da edição, vale a pena começar meus comentários por essa história. Antes de tudo é interessante ressaltar o valor de resgate histórico “combo” não se restringindo apenas ao autor Wilson Vieira, mas para o desenhista Aloísio de Castro e até mesmo à lembrança da revista Calafrio, onde a história foi originalmente publicada.


Além disso, este é um roteiro bastante representativo do período, ou ao menos a manifestação de uma cicatriz ainda aberta ao criticar o fantasma da ditadura que ainda assombrava a todos, mesmo alguns anos depois de seu término. E desta forma ele brinca com a hipocrisia da função de censor, que impede o livre trabalho do artista com justificativas vazias, enquanto ele mesmo pratica violências reais na sociedade.